Tal como 1929, também o ano de 1941 fica para a história dos EUA por várias razões, que interessa abordar com alguma atenção.
Passados que estavam os efeitos devastadores da Grande Depressão, viviam-se tempos de expectativa, motivados pelo rápido crescimento da economia norte-americana. O bombardeamento de Pearl Harbour fez o país entrar na II Guerra Mundial, retirando-o de um certo isolamento
a que se havia remetido. Este facto deu origem a uma nova era, quer em termos económicos quer em termos sociais e culturais.
A comunidade negra vai sentir de uma forma ainda mais intensa os efeitos desses novos tempos. Nos estados do Sul dos EUA, a situação nao era muito diferente da das decadas anteriores, mantendo-se um evidente clima de separacao racial, mais ou menos disfarcado. No Norte dos EUA, para onde se deslocaram muitos dos que procuravam escapar ao ambiente que se vivia no Sul, a situação era, apesar de tudo, menos complicada ....
A emancipação dos negros, porém, ainda estava longe. Os músicos das gerações anteriores conseguiam, ainda assim, vislumbrar na sua nova situação um passo em frente. Já os jovens sentiam na pele uma indisfarçável injustiça: o jazz foi criado e desenvolvido pelos negros, mas são os brancos que continuam a colher os seus frutos.
O swing, talvez esgotado no que toca a potencialidades de evolução criativa, estagnou. A rotina instalou-se na maioria das orquestras, com excepção para as de Ellington, Basie e Armstrong. Perante este estado de coisas, alguns músicos decidiram partir em busca de novos desafios musicais, enfrentando um dilema de difícil resolucao: se, por um lado, o público estava desligado do jazz mais genuíno, por outro este necessitava de uma renovacao para poder sobreviver.
Foi em Nova Iorque, em pequenos clubes nocturnos como o Minton's Playhouse ou o Monroe's Uptown House, que alguns musicos se reuniam, madrugada dentro, depois de tocarem com as suas respectivas orquestras, para improvisarem em conjunto. De entre os músicos presentes nessas sessões, contava-se um misterioso pianista, de nome Thelonious Monk, à época o pianista residente do Minton 's Playhouse. Presenca habitual era tambem o jovem guitarrista Charlie Christian, pioneiro da guitarra electrificada como instrumento solista. A eles juntava-se o baterista Kenny Clarke, que tocava de uma forma completamente nova.
O que se escutava era uma música nunca ouvida, feita de fraseados sinuosos e de ritmos desconcertantes. Regularmente participavam também nestas sessões dois músicos oriundos da orquestra de Earl Hines, com personalidades antagónicas, o extrovertido trompetista Dizzy Gillespie e o problematico saxofonista alto Charlie Parker.
Este grupo de músicos viria a mudar para sempre o curso da história do jazz. Estava em marcha a grande revolução do be-bop …
Perante este novo estilo linguagem as opiniões dividiam-se. Uns não gostavam, por nela não encontrarem evidente melodia ou ritmo para dançar, outros consideravam estar ali o futuro da música negra. Os próprios musicos, que, curiosos, também a iam escutar, não eram unânimes. Duke Ellington disse mesmo que o be-bop era o mesmo do que jogar Scrabble (um célebre jogo com palavras) sem as vogais ...
A mudança foi de tal modo profunda que foi preciso esperar até 1944 para se assistir à criação de um primeiro grupo estável de be-bop. Comandado por Gillespie, contava com Don Byas no saxofone tenor, Oscar Pettiford no contrabaixo e Max Roach, na bateria. Depois deste período tão importante, o jazz nunca mais seria o mesmo.
Alguns músicos importantes:
Bud Powell (piano)
Carmen McRae (cantora)
Charlie Parker (saxofone alto)
Dexter Gordon (saxotone tenor)
Dizzie Gillespie (trompete)
Errol Garner (piano)
Fats Navarro (trompete)
Hank Jones (piano)
Jay Jay Johnson (trombone)
John Lewis (piano)
Kenny Clarke (bateria)
Kenny Dorham (trompete)
Lucky Thompson (saxofone tenor)
Max Roach (bateria)
Oscar Pettiford (contrabaixo)
Thelonious Monk (piano)
Ray Brown (contrabaixo)
Red Rodney (trompete)
Roy Haynes (bateria)
Sarah Vaughan (cantora)
Sonny Sttit (saxofone alto)
Final dos ANOS 40 e a primeira metade dos ANOS 50 :
o COOL e o WEST COAST JAZZ
A revolução do be-bop, no início dos anos 40 do século XX, constituiu um corte radical com o jazz praticado nas décadas anteriores. Depois do be-bop, podemos afirmar que surgiram duas tendências estéticas opostas. Uma de reafirmacao dos valores fundamentais da cultura negra (o hard-bop) e outra que procurava incorporar elementos mais delicados e descontraídos, mais influenciados pela música europeia e afastando-se do blues, o chamado jazz cool.
O jazz começou a incorporar um conjunto de novos elementos que mudariam o curso da sua historia. Para muitos, o cool foi mais uma forma de abordar a música, um estilo de tocar, do que propriamente um período histórico. Este novo estilo iria espalhar-se pelos EUA muito rapidamente.
Se, por um lado, o hard-bop foi a continuação das inovações do be-bop, com um reforço da influência das raízes afro-americanas e dos blues, por outro, em Nova Iorque, no final dos 40, um jovem músico de nome Miles Davis começava a definir as bases daquilo que viria a ser conhecido como jazz cool. O disco «Birth Of The Cool», gravado em 1948 por um noneto liderado por Davis e com arranjos do canadiano Gil Evans, e uma obra fundamental para se compreender todo este período da história do jazz.
Na costa oeste dos Estados Unidos orquestras como as de Stan Kenton ou Woody Herman vinham desenvolvendo um estilo próprio - que ficou conhecido como jazz West Coast - que deixou descendência, maioritariamente num conjunto importante de músicos brancos que haveriam de marcar o jazz dos anos seguintes.
Em 1947, a orquestra de Woody Herman gravou o historico « Four Brothers», composicao da autoria do clarinetista e saxofonista Jimmy Giufre, da qual sobressaíam quatro saxofonistas que haveriam de marcar a estética cool: Stan Getz, Zoot Sims, Herbie Steward e Serge Chaloff. Esta forma de tocar seria adoptada por outros músicos, como
Paul Desmond ou Gerry Mulligan. O jazz West Coast seria, pois, uma derivação do jazz cool praticada maioritariamente por músicos brancos na costa oeste dos Estados Unidos, em particular na Califórnia, num período temporal que poderemos situar entre 1948 e 1955. Este tipo de jazz tinha muito a ver com o sol, as praias, uma certa forma relaxada de viver a vida.
A partir de meados dos anos 50, com o aparecimento das correntes ligadas ao free-jazz, o estilo cool viria a perder grande parte da sua importância, apesar de se manter popular, especialmente na costa do Pacífico.
Outro nome muito importante do cool foi o pianista Lennie Tristano. Nascido em Chicago, em 1919, Tristano ficou cego aos nove anos, o que nunca constituiu entrave para as suas explorações sonoras. Fundou um estilo, uma verdadeira «escola», que teve um papel decisivo na evolução do jazz depois do be-bop. Pianista de vanguarda, Lennie Tristano desenvolveu um conjunto de ideias novas, assumindo-se como uma alternativa ao be-bop. Este estilo veio a abrir as portas para o aparecimento do movimento cool. Dedicou-se ao ensino, tornando-se um dos mais importantes pedagogos da história do jazz. De entre os seus discípulos contam-se os saxofonistas Lee Konitz e Warne Marsh, entre outros. Contrariamente a alguns seus contemporâneos, Tristano não se limitou a repetir fórmulas gastas, preferindo seguir novos caminhos. Lennie Tristano é um dos nomes mais importantes da história do jazz, mas cujo papel é muitas vezes injustamente esquecido.
Alguns músicos importantes:
Al Cohn (saxofone tenor)
Anita O 'Day (cantora)
Art Farmer (trompete)
Art Pepper (saxofone alto)
Billy Bauer (guitarra)
Bob Brookmeyer (trombone)
Chet Baker (trompete)
Chico Hamilton (bateria)
Chris Connor (cantora)
Dave Brubeck (piano)
Lennie Tristano (piano)
Gerry Mulligan (saxofone barítono)
Hampton Hawes (piano)
Jim Hall (guitarra)
Jimmy Giuffre (clarinete)
June Christy ( cantora )
Lee Konitz (saxofone alto)
Miles Davis (trompete)
Paul Desmond (saxofone alto)
Pepper Adams (saxofone barítono)
Serge Chaloff (saxofone barítono)
Shelly Manne (bateria)
Shorty Rogers (trompete)
Stan Getz (saxofone tenor)
Stan Kenton (chefe de orquestra)
Tal Farlow (guitarra)
Warne Marsh (saxofone tenor)
Woody Herman (chefe de orquestra)
Zoot Sims (saxofone tenor)